Jornada de compra B2B: o erro que o case da Sephora expõe

Data de publicação

15 de agosto de 2026

Última atualização

08/17/2026

A folded paper map on cream linen with a single burnt orange pin pushed into it

“Aquela jornada de compra única já não funciona mais.” A frase é de Cataldo Domenicis, diretor de marketing da Sephora Brasil, em entrevista à Exame sobre como a rede acompanha o comportamento de compra no país. A Sephora opera mais de 3.000 lojas em 35 países, está no Brasil desde 2012 e atua num mercado de beleza que movimentou perto de R$ 175 bilhões no país no último ano, o terceiro maior do mundo na categoria, atrás apenas de China e Estados Unidos. Para acompanhar o cliente, a rede hoje cruza monitoramento de redes sociais, análise de dados digitais e observação de comportamento dentro da loja física.

É tentador achar que esse é um problema de gente grande, de rede com milhares de lojas. Na prática, é o contrário: quanto menor a operação, maior a chance de a jornada estar espalhada em canais que nunca se falam, e ninguém ter reparado ainda.

O erro de tratar WhatsApp, site institucional e visita comercial como canais separados

Em boa parte das PMEs B2B brasileiras, o caminho do cliente até o contrato passa por pelo menos quatro pontos: um anúncio ou indicação que gerou o primeiro contato, uma conversa no WhatsApp, uma visita ao site institucional e, só depois, uma reunião comercial. O problema não é ter vários canais. É que, na maioria dos casos, cada um deles guarda sua própria versão da história, sem se comunicar com os outros.

O vendedor não sabe se aquele contato no WhatsApp já tinha visitado o site duas vezes antes. O time de mídia não sabe se o anúncio que gerou o clique também gerou a venda fechada três meses depois. Cada área enxerga um pedaço da jornada e trata esse pedaço como se fosse o todo. É exatamente o oposto do que Domenicis descreve na Sephora, onde dado digital, comportamento físico e conversa em rede social são lidos como uma única história.

O preço de perder o fio entre o anúncio e a proposta comercial

Essa fragmentação custa caro de um jeito que raramente aparece em planilha. Verba de mídia continua sendo direcionada para o canal que “parece” trazer mais contato, mesmo quando esse canal só está roubando crédito de outro que fez o trabalho pesado antes. O vendedor repete perguntas que o lead já respondeu no WhatsApp, o que cansa quem está decidindo entre três fornecedores. E quando o negócio fecha, ninguém consegue dizer com segurança qual ação realmente pesou na decisão, então a empresa aprende pouco e repete a mesma aposta no ciclo seguinte.

Não é um problema de falta de dado. É excesso de dado solto, sem um lugar único que junte as pontas. E o efeito colateral mais silencioso talvez seja este: sem visão da jornada completa, fica impossível saber quanto tempo, em média, um lead leva do primeiro contato até assinar, ou em qual etapa ele mais desiste. Sem essas duas respostas, qualquer meta de vendas vira palpite, mesmo que pareça número exato numa planilha.

Como aplicar a lógica da Sephora com um CRM de verdade

Comece pelo funil, não pela ferramenta

Antes de contratar qualquer sistema, vale desenhar no papel as etapas reais pelas quais um cliente passa até comprar: de onde ele costuma vir, o que pergunta primeiro, em que momento entra em contato pelo WhatsApp, quando pede proposta. Só depois disso faz sentido escolher a ferramenta que vai registrar cada etapa num lugar só, e não em quatro planilhas e três aplicativos diferentes.

É esse desenho que dá sentido a um projeto de implementação de CRM: o sistema só é útil se reflete a jornada real do cliente, não um fluxo genérico copiado de outra empresa. A partir daí, cada conversa de WhatsApp, cada visita ao site e cada indicação passam a alimentar o mesmo histórico, visível tanto para quem cuida da mídia quanto para quem está na reunião de vendas.

Automatizar essa ponte entre o primeiro contato e a conversa comercial também reduz o tempo que o lead passa esperando resposta, que é justamente onde negócios B2B costumam esfriar. Uma automação de WhatsApp bem configurada não substitui o vendedor, mas garante que nenhum contato fique parado só porque chegou fora do horário comercial.

Vale um alerta sobre a ordem das coisas. Empresa que compra CRM antes de mapear o funil normalmente acaba com um sistema caro registrando a mesma bagunça de antes, só que num software só. A ferramenta organiza o que já está claro no papel, não cria clareza sozinha. Por isso o desenho do funil, ainda que simples, vem sempre antes da escolha de qual plataforma usar.

A Sephora não resolveu a fragmentação da jornada com uma ferramenta mágica. Resolveu juntando disciplina de dado com observação de comportamento real, algo que qualquer PME B2B consegue replicar em escala menor, desde que pare de tratar cada canal como se fosse a jornada inteira.

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